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"Então e os nossos?"

por Marisa Furtado, em 04.09.15

Ontem vi no Facebook uma reportagem da SIC Notícias sobre como ajudar os refugiados que vão chegar a Portugal. Dizem eles que há já quem se tenha chegado à frente para lhes dar guarida e outros que anunciaram que têm trabalhos na área da agricultura para oferecer aos que fogem da guerra e da vida miserável que têm no país de origem. Até aqui tudo bem. Esta é uma boa notícia. Afinal somos conhecidos por sermos tão cinzentões mas no fundo, lá no fundinho, somos uns corações moles. Não podemos ver sofrimento alheio que vamos logo a correr ajudar quem precisa. Certo? Ou será que não é bem assim?

Quando comecei a ler a caixa de comentários caiu-me tudo ao chão: “Vão ser como os ciganos que recebem mais do que quem trabalha!”, “1 em cada 10 são terroristas”, “Vão viver dos nossos subsídios!”, “Temos o dever de os ajudar mas temos a obrigação de defender os nossos!”, “Não ajudamos os nossos mas ajudamos os de fora!”, “Deviam era juntar-se todos e lutar contra quem lhes quer fazer mal, mas na terra deles!”, “Primeiro estão os nossos que precisam de ser ajudados!”, “Estamos a ajudar estrangeiros em vez de ajudarmos os portugueses que passam fome e frio nas ruas!”, “Mandam os nossos jovens emigrar e depois dão trabalho aos que vêm de fora!”, e mais haveria para citar, infelizmente.

Mas que gente é esta? “Então e os nossos?” A sério? Estão com inveja daquelas pessoas? Pessoas que vêm para cá sem nada, que vão passar meses amontoados em abrigos, que não sabem falar a nossa língua, que, provavelmente, perderam familiares na travessia até à Europa e, sim, que vão trabalhar nos nossos campos agrícolas estando ao mesmo tempo a ajudar-nos com a sua mão de obra e, obviamente, a receber pelo trabalho que desempenham, que a escravatura, felizmente, já é crime. Acham mesmo que os jovens portugueses que emigram se podem comparar a estas pessoas? Acham que um jovem de 25 ou 30 anos, licenciado que vai para o estrangeiro procurar um trabalho onde lhe paguem mais que os 500 ou 600€ portugueses se pode comparar a pessoas que fogem dos seus países de origem por alguém lhes ter rebentado com as casas, por as escolas estarem fechadas porque são um alvo tão apetecível como qualquer outro, por não terem o que comer? Acham mesmo que estamos em pé de igualdade? E se virarmos a situação ao contrário? E se fossemos nós os refugiados? Se fossemos obrigados a fugir do nosso país por ser mais perigoso ficar do que ir? Sim, que nada nos garante que não viremos a passar por algo semelhante. Que tal nos sentiríamos se chegássemos ao outro lado sem nada, provavelmente depois de termos visto a nossa mulher, ou o nosso filho morrer pelo caminho, e nos depararmos com as reacções que estamos a ter agora para os que precisam de ajuda? “Vão ser como os ciganos que recebem mais que quem trabalha!”, “Vão viver dos nossos subsídios!”, “Temos o dever de os ajudar mas temos a obrigação de defender os nossos!”, “Não ajudamos os nossos mas ajudamos os de fora!”, “Deviam era juntar-se todos e lutar contra quem lhes quer fazer mal, mas na terra deles!”… se calhar se virmos as coisas assim, se nos pusermos na pele deles, já não gostamos, já não nos sentimos tão superiores nem tão nacionalistas. Se calhar achamos que estamos todos a exagerar e a comportarmo-nos como pequenos animais selvagens que, como não são racionais, fazem apenas o que se lhes está na natureza quando outro animal lhes invade o território: põem as garras de fora e atacam. É um exercício bastante simples este, o de nos pormos na pele dos outros. Basta sermos portadores de uma coisa muito bonita e humana que se chama empatia que é precisamente aquilo que nos permite identificar com outras pessoas e com situações pelas quais nunca passámos. Mas se por acaso houver aí alguém incapaz de desenvolver tal sentimento e, pelo que li nas redes sociais, há muita gente que sofre desta patologia, vejam este vídeo produzido pela organização Save the Children precisamente para tocar aqueles que ou andam a dormir e não sabem o que se passa ou têm um pedragulho no lugar do coração e, por isso, vão para as caixas de comentários das redes sociais vomitar alarvidades como aquelas que citei aqui.

 

 

 

 

Se quiserem saber mais sobre o que se está a passar, o Observador está a fazer um trabalho incrível sobre o tema. É, provavelmente, o site português mais informativo que tenho consultado ultimamente. Não só sobre a crise dos refugiados mas também sobre os temas de política interna. Gostei particularmente deste guia eleitoral que resume muitíssimo bem, de forma clara e simples, as propostas de cada um dos partidos portugueses. Se estão indecisos e não sabem em quem votar esta é uma boa forma de ficarem mais iluminados. Ou não, mas aí a culpa já não é do jornal.

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publicado às 11:58

#MARIACAPAZ

por Marisa Furtado, em 19.12.14

Há algumas semanas começou o burburinho, com posts no Instagram e no Facebook, e ontem, finalmente, foi revelado o que é isto da Maria Capaz: um projecto em forma de site que tem como objectivo promover a discussão sobre a condição feminina. Confesso que quando soube que eram a Rita Ferro Rodrigues e a Iva Domingues que estavam por detrás disto torci o nariz. Não nutro especial simpatia por elas - que até podem ser umas queridas - e não sei exactamente porquê, mas desconfio que a culpa possa muito bem ser daqueles programas que duram horas infinitas ao domingo à tarde onde o único objectivo parece ser pôr as pessoas a ligar para um número de valor acrescentado com a promessa de não sei quantos mil euros em cartão. Bom, torci o nariz mas a curiosidade continuou lá. Aquela quote "Sou uma Maria Capaz. De tudo." ficou-me a ressoar na cabeça desde o primeiro momento em que a li. Por isso, hoje pus os meus preconceitos de lado, fui espreitar o site e em menos de 5 minutos fiquei rendida ao projecto. A culpa é deste tease:

 

 

A forma franca como estas mulheres falam do que é ser mulher, das dificuldades, das alegrias, das conquistas deixou-me rendida. Sou uma piegas, detesto injustiças e gosto muito de ouvir testemunhos de quem passou por momentos difíceis e conseguiu sair de pé e aprender alguma coisa com isso, ou de quem faz questão de divulgar situações atrozes para nos sensibilizar e fazer-nos olhar à nossa volta e não apenas para o nosso umbigo - como é o caso da Catarina Furtado e do trabalho humanitário que desenvolve. Tudo isto está aqui, na Maria Capaz. Nos discursos destas mulheres capazes de tudo. É pena só ainda haver a entrevista da lindíssima Catarina Furtado, quantas mais houvesse mais eu via, assim de enxurrada. 
Apesar de continuar a não simpatizar com a Rita e a Iva tenho de admitir que este projecto é interessantíssimo e inovador - acho que não há nada semelhante no nosso país - e espero sinceramente que tenha sucesso, que evolua e que consiga chegar a toda a gente. Homens ou mulheres. Pôr as pessoas a falar, a reflectir, sobre assuntos importantes, que nos interessam a todos, é fundamental. É o primeiro passo para a mudança.

 

 

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publicado às 13:28

A Genny, a Margarida e o Gonçalo

por Marisa Furtado, em 31.10.14

 

Só hoje de manhã soube desta notícia e fiquei impressionadíssima com tudo isto. O desespero na voz daquele homem, incapaz de fazer face às despesas astronómicas que um país sem SNS exige a quem precisa de ajuda médica, esmagou-me. Parece que quando as coisas más têm de acontecer acontece logo tudo ao mesmo tempo. A mãe que tem pré-eclampsia, a bebé que tem de nascer às 25 semanas, o hospital que pede ao pai para registar a bebé e lhe pede 3 mil euros para o efeito, os dois mil euros por dia que custa o internamento da mãe e da criança que pesa pouco mais de 400gr. e tudo isto num país estrangeiro, a quilómetros de casa, onde parece que as ajudas aos emigrantes não existem. Tive imediatamente uma vontade imensa de ajudar este casal e, ao mesmo tempo, um sentimento de gratidão por viver num país onde há um Serviço Nacional de Saúde que todos tomamos por garantido. Claro que não é perfeito, tem falhas, pode ser mais justo para uns que para outros mas existe, funciona, e é um descanso para todos, especialmente quando somos confrontados com realidades assustadores como a da Genny, da Margarida e do Gonçalo. Para saberem como os podem ajudar visitem a página de Facebook criada para o efeito.

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publicado às 10:17


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