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E que tal abolir a ideia de "ajudar"?

por Marisa Furtado, em 27.04.15

Hoje a Comunicação Social noticia um estudo levado a cabo pela ONU que conclui, entre outras coisas, que as mulheres trabalham quatro vezes mais que os homens em trabalho doméstico não remunerado. Estão a ver o filme não é? Aspirar, lavar a loiça, limpar o pó, sacudir os tapetes. Sinceramente, não é uma coisa que me choque tendo em conta que grande parte dos homens que conheço - tenham eles 60 ou 25 anos - quando começam a ouvir as respectivas queixarem-se que fazem tudo sozinhas lá em casa - mas que também fazem muito pouco para mudar isso... - dizem, inchados de orgulho, qual pavão a mostrar as cores fabulosas das suas penas: "não é bem assim! Eu também ajudo."

Pausa para respirar fundo.

Vamos lá ver uma coisa meus amores: a ideia aqui não é ajudar! É partilhar. Vocês não vivem num hotel com uma governanta que, volta e meia, ajudam. "Deixa-me cá lavar esta chávena que ela hoje tem muita coisa para fazer". Se vivem os dois na mesma casa, se sujam e desarrumam os dois o espaço que partilham, é ÓBVIO que são os dois que têm de unir forças para limpar a casa.
Mas o mais grave no meio disto tudo é que há mulheres que seguem o mesmo raciocínio. "Ele ontem ajudou-me a limpar a casa!" Errado. Quando oiço amigas minhas proferirem tal monstruosidade começa-me logo a sair fumo das orelhas. Parem de compactuar com essa ideia! Em casa ninguém ajuda ninguém. Tudo se partilha. Um casal deve ser, acima de tudo, uma equipa. Tanto dentro de quatro paredes, como na vida fora delas. 
Agora que penso nisso, provavelmente a única coisa necessária para alterar os números de estudos como este é abolir a ideia de "ajudar" a substituí-la por "partilhar". Ah, e já agora, abolíamos também as etiquetas de certas e determinadas cuecas que mandam as mães lavá-las à mão. Não, não tem graça. É só estúpido.

 

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publicado às 12:18

Ai que nojo, uma mama!

por Marisa Furtado, em 01.04.15

Quando li este texto na New In Town alguma coisa em mim começou a fervilhar de irritação. Não por ser uma dessas que se "exibem" nos balneários, que eu nem frequento ginásios, mas porque a) a autora em questão tem sempre opiniões muito vincadas sobre tudo e mais um par de botas mas, depois, aquilo muito bem espremido dá zero e b) pela presunção e água benta da mesma. "Ai, porque é uma chatice uma pessoa ir ao ginásio e depois ter de ver pipis e mamas no balneário. Tapem-se senhoras! Tapem-se! Que pouca vergonha, que falta de chá." Mas o que é isto? E o que mais me impressionou foi uma data de gente concordar com esta monstruosidade.
Vamos cá ver uma coisa: um balneário serve para tomar banho não é? E uma pessoa depois do banho tem de se limpar, por o seu creme hidratante com toda a calma, vestir-se. Portanto, é normal haver nudez nos balneários. O que não é normal é alguém achar que pessoas nuas num sítio destes é assim uma coisa do outro mundo. O que não é normal é esta pessoa afirmar em praça pública que as mulheres que se exibem desta forma têm uma grandessíssima falta de decoro e que, como li algures na página do Facebook, deviam usar os compartimentos fechados onde tomam banho para fazerem tudo o resto. Isto para mim, que sou uma pessoa ansiosa e com alguma dificuldade em estar fechada em sítios apertados durante muito tempo, já me deixa cheia de calores. Como é que uma pessoa se seca, besunta com creme e veste no cubículo onde esteve a tomar duche que, provavelmente, está a escorrer água por todo o lado e super quente? Isto é a receita para um ataque de pânico. Dos grandes.
"Ora, existe um número limitado de pipis que uma pessoa pode/quer ver durante a sua vida," Li o texto duas vezes, porque achei que da primeira não tinha percebido bem a mensagem, e das duas vezes parei nesta frase tão poética que até faz festinhas na orelha. O que é que isto significa ao certo " existe um número limitado de pipis que uma pessoa pode/quer ver durante a sua vida,"? Que só podemos ver 5 pipis ao longo da vida e se virmos o 6.º ficamos com danos irreversíveis ao nível ocular? E que sentido é que faz o verbo 'querer' nesta frase? Sei que não estou em posição de afirmar o que é ou não normal mas... é normal uma mulher querer ver um certo número de pipis ao longo da vida? É que eu não tenho particular vontade de ver mais nenhum. Pronto, se um dia tiver uma filha vejo o dela, que remédio, mas isso não depende dos meus quereres é a própria vida que mo está a pôr à frente dos olhos e eu tenho de lidar com isso.
"Ora, eu sinto-me no direito de escolher os pipis que quero ver!" Mais uma vez... WHAT?!?! Mas isto escolhe-se? Como? "Olhe, desculpe, mas importa-se de fechar as pernas? É que eu não quero ver o seu pipi peludo de 74 anos, prefiro ver o daquela menina ali ao fundo com depilação integral e uma tatuagem muito engraçada ali de lado". É isto? A mim parece-me é que não são as senhoras que mostram mamas e pipis nos balneários que estão mal. É mesmo esta alminha que precisa, urgentemente, de sair da zona de conforto e aceitar as coisas como elas são: nos balneários há nudez. E estranho é haver uma mulher que se sente ofendida ou incomodada com a nudez de outras mulheres num espaço onde é expectável haver corpos nus. Se há mulheres que se "passeiam" ou "exibem" nos balneários é porque se sentem confortáveis com o seu corpo e isso é de louvar. Por cada mulher que gosta do seu corpo há 10 que se martirizam porque têm gorduras a mais, mamas a menos, estrias que não tinham há três anos e que, provavelmente, se escondem naqueles compartimentos que existem nos balneários para não terem de mostrar os corpos imperfeitos a pessoas mesquinhas como a Srª Mó da Silva.
"Parecendo que não, a imposição visual de pipis alheios é uma coisa que, para além de muito desagradável (...), não é isenta de deixar mossa no intelecto de cada uma de nós". Moça, a mossa já aí está e é bem visível a cada nova crónica de costumes, mas duvido que seja por ter tropeçado nos pipis das senhoras que têm a infelicidade de partilhar um balneário consigo. Faça assim, se lhe faz impressão vá tomar banho a casa. Certamente aí conseguirá ver preenchida a quota de pipis que quer ver ao longo da vida. Ou não, que eu continuo sem perceber aquela frase, caramba!
É como diz, e bem, a Sílvia Baptista: "A seguir acabamos com o quê? Pêlos? Só entram mulheres com depilação brasileira? E depois? Acabamos com as gordas? Que nojo, pessoas gordas, era matá-las a todas! E assim vamos, cantando e rindo, armadas em engraçadinhas enquanto damos tiros no pé. A seguir acaba-se com as feias, as burras, as que se vestem mal, as porcas, enfim. Cuidado. Quando chegar a vez das estúpidas, protejam-se…"

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publicado às 15:40

O que os homens que educam raparigas precisam saber

por Marisa Furtado, em 30.03.15

Há uns anos soube que queria ser mãe. Acho que foi uma coisa que aconteceu assim de repente, num dia não pensava nisso e, sem que nada o fizesse prever, no dia seguinte comecei a maturar a ideia - será que é isto o relógio biológico? - Quero ter a oportunidade e o privilégio de educar alguém com os valores que acredito serem os correctos. É um desafio, provavelmente muitas vezes mal sucedido, mas acima de tudo um privilégio. Com o passar do tempo comecei a desenvolver um interesse crescente pelas questões da parentalidade - e não usei a palavra 'maternidade' de propósito -, desde a amamentação, esse assunto tão polémico!, a questões comportamentais dos miúdos - as birras, as noites a caminho da cama dos pais, a escola, as dificuldades de aprendizagem, etc. Numa das minhas leituras acabei por ir dar a este post interessantíssimo; um texto escrito por uma rapariga de 23 anos sobre as 25 coisas que os pais devem fazer quanto têm uma filha. E quando digo pais refiro-me exclusivamente aos homens. Estas são algumas coisas que ela menciona no artigo:

- Não influencies nem assumas quais são os gostos dela só porque é uma rapariga. Não lhe mostres apenas flores e bonecas. Dá-lhe a conhecer também carros e Legos.
- Trata a mãe dela como igual e não como se fosse inferior a ti. Quando crescer vai querer que a tratem da mesma maneira.
- Mostra-lhe o teu lado sensível. Assim vai perceber que também pode sê-lo sem ver isso como uma fraqueza.
- Faz um esforço para entenderes os interesses dela. Vais ensiná-la que, sejam eles quais forem, são interessantes e têm valor.
- Se não o dirias a um filho, não o digas à tua filha.
- Não fales das mudanças que se passam no corpo dela como se fossem coisas estranhas. Isso só fará com que ela sinta vergonha do próprio corpo.
- Não objectifiques o corpo das outras mulheres nem faças comentários degradantes acerca disso. Ela ouve o que dizes e vai, certamente, olhar para ela à luz desses comentários.
- Não fales apenas de homens importantes, fala também de mulheres fortes e com papeis importantes na sociedade. Ela vai crescer sabendo que isso é a regra, e não a excepção, e que tem essa oportunidade.
- Ensina-a que ela é a única pessoa que decide o que acontece com o corpo dela

 

Este artigo fascinou-me porque, apesar de falar de coisas que, idealmente, fariam parte do senso comum de qualquer pai, toca também num ponto crucial e que, provavelmente, as pessoas não entendem ou não valorizam: a forma como os pais/homens educam as filhas e a forma como se comportam pode mudar o mundo para as mulheres. Não só para aquela que estão a ver crescer mas para todas as outras que se vão cruzar na vida dela e que ela própria, um dia, pode vir a educar. Depende muito deles, dos pais, dos homens que as educam, a forma como elas se vêem a elas próprias e como interpretam o que as rodeia. Parem de dizer aquela parvoíce "assim que ela me aparecer com um rapaz em casa recebo-o com uma espingarda". Não. Errado.  Se não confiam no julgamento que ela faz das pessoas, então alguma coisa falhou na educação que lhe deram. Se derem o exemplo não têm nada a temer. Se tratarem as mulheres, especialmente a mãe dela, com respeito, se forem carinhosos e elogiarem frequentemente não só a mãe mas a própria filha, se derem o exemplo, elas vão querer alguém igual ou melhor. Mas se, por acaso, ela se enganar esqueçam a espingarda. Basta estarem lá para ela quando as coisas correrem mal. Não só é mais realista como é bastante mais útil. E se tiverem  dificuldades em conter-se nesses comentários sexistas sigam-se por aquela simples regra: se não o diriam a um rapaz, não o digam a uma rapariga. Usando novamente o mesmo exemplo, nunca ouvi um pai de um rapaz dizer "assim que ele me aparecer com uma miúda cá em casa recebo-a com uma espingarda". Nunca. Provavelmente escolhem outro tipo de comentários idiotas e igualmente sexistas. Portanto, se não o diriam aos filhos, não o digam às filhas e vice-versa. É um óptimo primeiro passo para educar aquela pessoa para a igualdade. Os pais - e agora por 'pais' refiro-me aos dois, ao pai e à mãe - não são a única influência na vida dos filhos e é por isso que têm de ser a melhor. 

 

 

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Imagem via Pinterest

 

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publicado às 10:20

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Campanha da Terre des Femmes - organização suíça que luta pelos direitos humanos e igualdade de género


 

O valor da mulher não se mede pelo comprimento da saia nem pela profundidade do decote.

 

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publicado às 15:07

O Dia da Mulher faz sentido?

por Marisa Furtado, em 04.03.15

Esta é a semana do Dia da Mulher – dia 8, domingo – e por isso lembrei-me de uma discussão que tenho tido recorrentemente com várias pessoas sobre a utilidade, ou falta dela, deste dia.
Para mim a importância do Dia da Mulher nunca esteve em causa. Sempre achei que era uma data importante e que fazia todo o sentido ser celebrada. Mas no último ano, para meu espanto, cruzei-me com algumas pessoas que pensam precisamente o contrário. Que acham que este dia não devia existir porque perdeu todo o significado, que para além de ser só mais um dia consumista, onde as mulheres se juntam para irem correr de cor-de-rosa, entrarem à pala em quase todo o lado e terem descontos em mil e uma coisas; é também um dia em que são vistas como um ser especial, diferente. “Coitadinhas ganham menos que os homens, trabalham as mesmas horas, ou mais, e ainda têm de ser boas mães e esposas. ‘Bora lá dar-lhes flores e descontos em malas e sapatos para ver se ficam mais satisfeitas.” Portanto, para muitos, este dia não devia existir porque é só mais uma forma de sublinhar o quão especial a mulher é... mas pela negativa, por isso acham que se não o celebrássemos a luta pela igualdade de género passaria a ser uma coisa banal e não um problema do qual só se fala durante 24h e depois é esquecido. 
Por um lado entendo este ponto de vista, claro. Acho que o Dia da Mulher devia ser usado de outra maneira, devia funcionar como um despertar de consciências e não uma forma de as adormecer ainda mais. Por outro, discordo completamente quando me dizem que ele nem sequer devia existir. Claro que devia existir! Não para recebermos flores à saída do metro; não para termos descontos em roupa; não para serem organizadas corridas só de mulheres, mas para nos lembrarmos – todos!, homens e mulheres - do caminho percorrido, do que já foi conquistado, e para reflectirmos sobre o que ainda falta conquistar. Isto é especialmente importante num país como o nosso, onde a luta pela igualdade de género é uma realidade muito recente. Nos anos 30 a Constituição estabeleceu o princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a Lei mas com algumas excepções para a mulher que, devido à sua natureza, era relegada para segundo plano na vida familiar e na própria sociedade. Há quase 50 anos a mulher ainda não podia sair do país sem ter autorização do marido, nem podia tomar contraceptivos se o senhor seu esposo achasse que isso era um grande disparate. Posto isto, é óbvio que este dia deve existir, deve ser celebrado e deve ser um dia de discussão. Ou melhor, deve ser mais um dia de discussão. Porque, de facto, não é só no Dia da Mulher que a igualdade de género deve ser posta em cima da mesa. Esta deveria ser uma preocupação de todos, sempre, até as coisas realmente mudarem. E é precisamente por isso que este dia é importante. Não se falar das coisas nunca foi solução para nada. É bom haver dias destes para nos lembrarmos de quão más as coisas já foram. Acredito que baste isso, essa memória, para evitarmos cometer os erros do passado. E mesmo que hoje em dia ainda não se discuta o suficiente este assunto - embora ache que estamos melhores nesse aspecto - é muito melhor haver um dia por ano em que o tema venha à baila do que não haver dia nenhum. Aliás, até acho isso perigoso. Ao menos esta data obriga-nos a pensar sobre isso. Há que começar por algum lado, certo? Resta esperar que haja um ano em que a discussão comece no dia 8 de Março e se prolongue indefinidamente até as coisas mudarem efectivamente.

 

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publicado às 11:01

Quando a política e a cultura pop se cruzam

por Marisa Furtado, em 20.02.15

Há uns meses escrevi neste espaço que achava importante, urgente até, que "as discussões de assuntos sérios e que interessam a toda a gente,(...), não se cinjam apenas à política e às pessoas que a fazem. Que não sejam discutidos apenas em assembleias por alguém com pouco carisma e que, por isso mesmo, não consiga chegar às massas. É importante que esses temas extrapolem desses locais cinzentos e empoeirados para a cultura pop e sejam divulgadas por quem a faz." Foi por acreditar mesmo muito nisto que estava cheia de curiosidade por ver a entrevista da Assunção Esteves à Maria Capaz. Queria ver como é que uma pessoa que está na política, e que não tem uma imagem propriamente simpática - infelizmente são poucos os que têm -, 'desceria' até à cultura pop para falar de um assunto tão sério como o papel da mulher na sociedade. Fiquei agradavelmente surpreendida. Tão surpreendida que vi a entrevista duas vezes seguidas. O que vemos aqui é uma mulher igual a tantas outras. Doce, nada austera, leve, divertida e perfeitamente consciente dos mitos que se foram criando em redor da sua imagem. Talvez o maior de todos seja o de que quando fala ninguém a entende - todos nos lembramos do "inconseguimento" e do "nível social frustracional". Pois que aqui acho que todos a entendemos muito bem e conseguimos desenvolver alguma simpatia por ela, ideologias políticas à parte.
Houve três momentos da entrevista que me emocionaram particularmente e que acho que vão ficar a ecoar dentro de mim. O primeiro foi quando falou da não-indiferença inerente à condição feminina. Esta não-indiferença é talvez um dos maiores catalisadores da mudança. O haver algo dentro de nós que nos impele a agir, a não deixar passar algo que sabemos, no nosso íntimo, que tem de ser melhorado, mudado. O segundo momento foi quando falou da urgência da diminuição das horas de trabalho. Achei essa afirmação fantástica! Numa altura em que parece haver um braço de ferro constante entre homens e mulheres, entre chefes e subordinados, para ver quem trabalha mais horas, não quem trabalha melhor, atenção!, mas quem trabalha mais, acho que talvez seja preciso dar um passo atrás e avaliar friamente o que está verdadeiramente em jogo. O terceiro foi o da descrição do olhar apreensivo que a Assunção sentiu por parte de alguns homens no Parlamento Europeu quando se levantou para falar. Algo que, diz ela, nunca tinha sentido em Portugal. Dá que pensar, certo? Pelo menos a mim deu.

 

 

 

Para verem a entrevista completa é só clicar aqui.

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publicado às 13:08

O drama. O horror.

por Marisa Furtado, em 19.02.15

Todas as semanas o mundo cibernético cospe um tema que acaba por ser O Tema. Toda a gente fala d'O Tema. Toda a gente se insurge com O Tema. Esta semana O Tema é a Beyoncé. Ou melhor, a Beyoncé sem retoques. Pois que afinal a Beyoncé não tem uma pele imaculadamente perfeita. Tem poros, tem penugens, tem rídulas e tem borbulhinhas. E, pasmem-se, afinal também fica muito pouco favorecida quando lhe é apontada uma luz branca, a la provadores da Zara, para o rosto. No fundo, a Queen B. é igual a qualquer outra mulher que habite neste mundo. Espectacular não é?
Mas ainda há alguém que compre a história de que aquelas mulheres, que aparecem naqueles anúncios de TV ou naqueles outdoors, são mesmo assim? Sabem aquela velha máxima que diz que se uma coisa parece demasiado boa para ser verdade é porque é? Pois, então não se esqueçam. Nenhuma base é suficientemente boa ao ponto de nos deixar com uma cara de boneca de porcelana e não há ninguém, ninguém! que fique bem sob luzes brancas, ou sob zooms que aumentam tudo 24 vezes, ou em fotos tiradas de baixo para cima. Não fico eu, não fica a Maria da contabilidade e não fica a Beyoncé. It's no big deal. É a vida. E o photoshop.


Antes 

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Depois

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Não se martirizem nem se choquem por não conseguirem estar ao nível das imagens hiper-aperfeiçoadas que nos entram todos os dias pelos olhos adentro. Já todas estamos fartinhas de saber que aquilo não é real e que só tem um único objectivo: vender. Somos todas diferentes - felizmente! - e todas temos o nosso encanto natural. Eu, a Maria - a da contabilidade -, a Beyoncé. Estamos todas no mesmo barco. Bom, se calhar a Queen B. está num barco melhorzinho, atracado nas Bahamas, enquanto nós temos de nos contentar com o nosso botezinho a boiar ali no Tejo. Mas no que toca às imperfeições, somos todas iguais. Todas as temos. É urgente conseguir separar o real do irreal, sentirmo-nos bem na nossa própria pele e pararmos com esta obsessão, com esta corrida, pela perfeição. Isso não existe! E acharmos que sim, que conseguimos ter aquela pele perfeita, aquele corpo torneado sem um pingo de gordura, aquele cabelo sempre sedoso e cheio de volume, aquele bronze... bem, isso não só é irreal como é uma canseira. A Beyoncé não é feia, nem nos andou a enganar este tempo todo. É, simplesmente, uma mulher igual a todas nós. Get real.

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publicado às 15:24

Piropos à portuguesa, com certeza

por Marisa Furtado, em 21.01.15

Um dia, com tempo, gostava que alguém me explicasse qual é o objectivo de certos animais homens quando passam na rua por uma mulher que nunca viram na vida, nem hão-de voltar a ver, e soltam cumprimentos do género: "Olá linda", "Olá coisa fofa", "És toda boa", "Hum, que querida" ou, como tive o prazer de ouvir ontem, "Amo loiras, f.......". Mas o que é isto?!?! Juro que não percebo. Coisa fofa?! Querida? Mas de onde é que aquele caramelo me conhece para me estar a chamar coisa? E, pior ainda, fofa? Qual é o objectivo destas tiradas? Se é que há algum objectivo. Duvido que haja. O que é que eles acham que conseguem com isto? Será que estão à espera que nos viremos para trás a dizer: Olha que querido, muito obrigada, tu também não és nada de se deitar fora. Dá-me lá o teu número para combinarmos um cafézinho. Conheço um restaurante aqui perto que tem uns brunchs óptimos. Ou preferes ir já para um motel para despacharmos isto? Que eu, com essa pick up line refinadíssima, já estou aqui que não me aguento. É que podem tirar o cavalinho da chuva que isso só acontece nos filmes, e não é em todos, só naqueles de gosto duvidoso. Provavelmente os únicos que vêem.

Aquilo que sinto quando sou presenteada com estes "elogios" (des)inspirados é nojo. Nojo da pessoa que os diz, vergonha - aquela do "Amo loiras (...)" foi dita aos berros num sítio cheio de gente... - e sinto-me ofendida e zangada, de tal forma que a única vontade que tenho é de me virar para trás e pregar um valente estaladão no delicado focinho do indivíduo. A única mensagem que passam é a de que são uns rebarbadões de primeira apanha, a fina flor do entulho, e que não há mulher nenhuma no mundo que respeitem. Sexy, ãh? E ao mesmo tempo parece que sofrem de um espectro muito particular da síndrome de Tourette, que só se manifesta quando vêem uma mulher que lhes agrade. Ficam descontrolados e dizem a primeira coisa que lhes vem à cabeça. Vómito.

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publicado às 10:07

#MARIACAPAZ

por Marisa Furtado, em 19.12.14

Há algumas semanas começou o burburinho, com posts no Instagram e no Facebook, e ontem, finalmente, foi revelado o que é isto da Maria Capaz: um projecto em forma de site que tem como objectivo promover a discussão sobre a condição feminina. Confesso que quando soube que eram a Rita Ferro Rodrigues e a Iva Domingues que estavam por detrás disto torci o nariz. Não nutro especial simpatia por elas - que até podem ser umas queridas - e não sei exactamente porquê, mas desconfio que a culpa possa muito bem ser daqueles programas que duram horas infinitas ao domingo à tarde onde o único objectivo parece ser pôr as pessoas a ligar para um número de valor acrescentado com a promessa de não sei quantos mil euros em cartão. Bom, torci o nariz mas a curiosidade continuou lá. Aquela quote "Sou uma Maria Capaz. De tudo." ficou-me a ressoar na cabeça desde o primeiro momento em que a li. Por isso, hoje pus os meus preconceitos de lado, fui espreitar o site e em menos de 5 minutos fiquei rendida ao projecto. A culpa é deste tease:

 

 

A forma franca como estas mulheres falam do que é ser mulher, das dificuldades, das alegrias, das conquistas deixou-me rendida. Sou uma piegas, detesto injustiças e gosto muito de ouvir testemunhos de quem passou por momentos difíceis e conseguiu sair de pé e aprender alguma coisa com isso, ou de quem faz questão de divulgar situações atrozes para nos sensibilizar e fazer-nos olhar à nossa volta e não apenas para o nosso umbigo - como é o caso da Catarina Furtado e do trabalho humanitário que desenvolve. Tudo isto está aqui, na Maria Capaz. Nos discursos destas mulheres capazes de tudo. É pena só ainda haver a entrevista da lindíssima Catarina Furtado, quantas mais houvesse mais eu via, assim de enxurrada. 
Apesar de continuar a não simpatizar com a Rita e a Iva tenho de admitir que este projecto é interessantíssimo e inovador - acho que não há nada semelhante no nosso país - e espero sinceramente que tenha sucesso, que evolua e que consiga chegar a toda a gente. Homens ou mulheres. Pôr as pessoas a falar, a reflectir, sobre assuntos importantes, que nos interessam a todos, é fundamental. É o primeiro passo para a mudança.

 

 

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publicado às 13:28

Das 'role models'

por Marisa Furtado, em 15.10.14

Ontem ao longo do dia fui acompanhando, com alguma perplexidade, a grande polémica em torno do corpo da Jessica Athayde. Acho que já se disse tudo o que havia para dizer e, por isso, não vou estar aqui a dissertar sobre o óbvio: ela é lindíssima, tem um corpo fantástico e, pelo que consigo perceber através do blog e do Instagram, é uma miúda muito simples e divertida. Mais lovable que isto é impossível. Vou, porém, debruçar-me sobre um comentário deixado no blog dela e com o qual não podia estar mais em desacordo. Dizia uma mente iluminada que ela não só não tinha razões para estar tão melindrada com o comentário que lhe tinham feito como tinha de pôr as mãozinhas na consciência e reflectir sobre as figurinhas que andava a fazer nas capas das revistas masculinas. Segundo esta pessoa a própria Jessica Athayde, por aceitar posar para as ditas publicações, está a contribuir para a baixa auto-estima e para a objectivação das mulheres que, aparentemente, olham para aquelas imagens e vão a correr para casa cortar os pulsos. O que se está a querer fazer da Jessica, e das muitas outras mulheres que aceitam posar para revistas ou desfilar em biquíni, é o mesmo que se faz lá nas Américas com os pop idols: transformar uma pessoa que chega às massas num role model, um exemplo a seguir. Porque é que se exige isto de actrizes, cantoras, modelos e até bloggers é uma coisa que eu nunca consegui perceber muito bem. Estas pessoas são como nós, simplesmente têm um trabalho que lhes dá visibilidade mas isso não significa que tenham de ser cidadãos exemplares e modelos a seguir. Se forem tanto melhor, pronto, mas isso não pode ser algo que se lhes possa ser exigido logo à partida, do género: "Ou personalizas já uma embaixadora da boa vontade ou então escusas de cá vir fazer o casting." Não faz sentido. Porque é que uma actriz tem de ter um comportamento exemplar, um corpo exemplar, um estilo de vida exemplar... porquê? Porque é que estas pessoas, que só estão a fazer o trabalho delas, como todos nós, têm de carregar às costas este estigma? A Jessica Athayde posou para revistas masculinas porque a convidaram e lhe pagaram, faz parte do trabalho. O que não faz parte do trabalho é ela ter de andar sempre tapadinha e não participar em certos projectos para as restantes mulheres não ficarem ofendidas, para não a acusarem de vender uma imagem distorcida da "mulher real" - esta é outra coisa que ainda estou a tentar perceber. Afinal o que é a mulher real? É a modelo que desfilou depois dela? É a blogger que estava sentada na primeira fila? É a senhora gordinha que vi ontem à noite no Mc Donald's a lambuzar-se com um sunday de caramelo? Não sei. -, para não chocar as adolescentes que pensam que se não formos todas assim não valemos um chavelho. Não!! O objectivo não é esse. Tal como a parva da Miley Cyrus deve poder mostrar a língua e abanar o rabo sempre que lhe apetece também a Jessica Athayde pode fazer o trabalho dela e pavonear-se de biquíni onde lhe apetecer sem ter em cima dos ombros a responsabilidade de passar uma imagem que seja consensual e que não ofenda nem chateie ninguém porque, guess what?, isso é impossível!!! Estas pessoas não são obrigadas a ter essa responsabilidade social, não são obrigadas a educar o povinho, não têm de deixar de fazer o que lhe apetece - deitar a língua de fora, desfilar na Moda Lisboa mesmo não sendo modelos, posar para a Playboy - porque há milhares de adolescentes/mulheres inseguras a ver o que elas fazem e podem ficar baralhadas e maluquinhas para o resto da vida. Essa orientação não pode nem deve vir das celebridades, p'lamor de Deus! Isso é quase tão mau como dizer que os professores também têm de educar os alunos. Não, não têm. Têm, sim, de os instruir, de pôr aquelas cabecinhas a trabalhar e a pensar por elas próprias. A educação, essa, se não vier de casa também não é nas escolas que a vão encontrar. Nem na capa de uma revista.

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publicado às 10:14


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