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E quando o senhorio nos impinge a mobília?

por Marisa Furtado, em 19.05.15

Gosto das facilidades de morar numa casa arrendada: é bonitinha, não dá chatices, se der o senhorio resolve, e, se um dia, ficar sem dinheiro e tiver de ir para uma mais barata é só fazer as malinhas e pôr-me a andar. Já pensar em comprar uma casa que vou ter de pagar durante 40 anos, as reuniões de condomínio, o IMI, o querer mudar de casa e ficar anos a tentar vender a que entretanto comprei... isto sim, dá-me voltas ao estômago. Acho que aquele gostinho de sermos donos de qualquer coisa é uma característica muito portuguesa. Fora do nosso jardim à beira-mar plantado o normal é alugar em vez de comprar e toda a gente vive muito bem com isso, mas cá dentro levamos com o estigma dos coitadinhos que não têm onde cair mortos. Claro que se um dia eu e o meu homem encontrarmos uma casa que é mesmo aquilo que procuramos a uma prestação inferior à que pagamos de renda mudamo-nos sem pensar duas vezes, mas acho que esse é um futuro muito, muito longínquo. Já andámos a ver e chegámos à conclusão que dificilmente encontraríamos uma casa do género da nossa com uma prestação que pudéssemos pagar. Já para alugar... a conversa é outra. 
Volta e meia encetamos novas procuras pela casa perfeita, no sítio perfeito. Não é que a que temos agora seja má, longe disso, mas se pudéssemos não demorar uma média de 30 a 40 minutos para chegar ao trabalho todo o santo dia éramos pessoas muito mais felizes e serenas. Apesar de gostarmos muito de ver casas a procura consegue ser física e emocionalmente desgastante, ora atentem. Na nossa busca temo-nos deparado com uma atitude por parte dos senhorios que nos deixa deveras irritados. Ou melhor, duas atitudes. A primeira é pedirem-nos três, e por vezes até quatro, - quatro!!!!!! - rendas, como se entregar assim quase 3 mil euros fosse uma coisa banalíssima que não custa nada. "A primeira renda é a do primeiro mês, a segunda é a do último, a terceira é a de caução, a quarta... " e eu entretanto deixo de ouvir o sanguessuga que tenho do outro lado porque começo a fazer contas à vida e percebo que o que nos estão a pedir é absurdo. 
A segunda coisa é aquela teoria espectacular "usem as nossas coisas porque assim poupam as vossas". Aconteceu-nos recentemente quando fomos ver uma casa que tinha uma máquina de lavar loiça minúscula e uma mesa de cozinha hedionda. Quando questionei o senhorio sobre a possibilidade de levar dali aquelas coisas para nós podermos entrar com as nossas a resposta foi um desconfiado: "Nós podemos tirar... mas não vejo que sentido faça. Porque é que não usam o que nós podemos deixar aqui? Usam as nossas coisas e assim não gastam as vossas." Não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muito incomodada com aquela insistência. Aquela pessoa estava, claramente, a impingir-nos as coisas que já não lhe faziam falta! Gostava muito de saber de onde vem este raciocínio economicista sem lógica nenhuma. Nós queremos uma casa DESmobilida por uma razão. Há uns anos investimos bastante dinheiro em mobília ao nosso gosto e, por isso, fazemos toda a questão de levar as nossas coisas para onde formos. Eu não quero poupar as nossas coisas. Quero usá-las. Afinal foi para isso que as comprámos. Se temos um sofá cinzento clarinho, giríssimo, com linhas direitas e modernas, que vão mesmo bem com o resto da mobília da sala, toda branquinha e minimal, porque é que havemos de ficar com o vosso sofá verde escuro com linhas arredondadas? Se temos uma mesa da cozinha linda, grande, de madeira castanha clarinha, porque é que havemos de ficar com uma redonda, pequena, castanha escura e envernizada? Porquê? Para poupar a nossa? Mas poupá-la para quê? Nós comprá-mo-la e queremos dar-lhe uso. Tudo o que eu mais quero é entrar na minha cozinha arrendada, ver a minha mesa do IKEA, que era mesmo aquilo que queríamos e que comprámos com muito amor e carinho, e sentar-me ali descansada a tomar o pequeno-almoço. Na MINHA mesa. Posso estar na cozinha de outra pessoa, mas a mesa é bonita e é minha. E o mesmo se aplica a toda a mobília da nossa casa. Desde o espelho fabuloso que temos no quarto que mede uns simpáticos dois metros - adoro espelhos grandes - e que nos custou os olhos da cara, aos talheres baratinhos do Espaço Casa. São as nossas coisas compradas com amor e ao nosso gosto. Porque é que havemos de querer ficar com os restos das outras pessoas, aquilo que não lhes convém levar para onde quer que estejam a morar agora? Nós sabemos que estamos a alugar a vossa casa mas, pelo menos por um período de dois ou três anos, aquele será o nosso lar e não a vossa casa de arrumos de mobília dos anos 80. Não me importo nada de ir para uma casa usada e que pertence a outra pessoa mas, porra, só não me tirem a mobília!

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publicado às 12:22


1 comentário

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De marrocoseodestino a 24.05.2015 às 19:17

A minha ideia em optar como comprar casa ou alugar é exatamente a mesma que a sua.
Já tive minha vendia e não penso em comprar mais nenhuma.
Se não estou bem mudo-me, se achar caro mudo para mais barata, se quiser pegar na trouxa e ir para outro país vou e temos a vantagem das obras ficarem a cargo do senhorio.
No ultimo apartamento em que estive se fosse meu estava metida num "bico de obra". Uma medonha infiltração vinda do vizinho de cima deixou-me à beira de um ataque de nervos. Como a coisa não se resolvia saímos. Se fosse minha lá teria de aguentar.
Nesta que estou apenas paguei 2 meses de renda e lá tive de ficar com os eletrodomésticos do senhorio e vender os meus. Menos mal que estes era novos e bons.
Boa semana

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