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Afinal o que é a "mulher real"?

por Marisa Furtado, em 16.10.14

No post de ontem disse que não entendia bem o conceito de "mulher real", essa instituição. E é verdade, não o percebo. As mulheres hoje em dia falam da "mulher real" como se fosse, de facto, uma pessoa, ou um grupo de pessoas, facilmente identificável. "É ali que está a mulher real. Ali, aquela senhora a empurrar o carrinho de bebé com um ar miserável e olheiras até ao queixo." Para mim não só não é assim tão simples como tenho quase a certeza que a "mulher real" depende, apenas e só, da realidade em que cada mulher vive. Não é nenhum conceito nem alguma coisa a que tenhamos que aspirar. 
Sempre que alguém tem a triste ideia de falar da sua vidinha ligeiramente abonada, comparativamente à da maioria das pessoas, há sempre alguém que se insurge, muito ofendido, de dedo esticado a gritar que aquilo não é representativo da "mulher real". Portanto, aparentemente toda a gente sabe o que não é a "mulher real": não é a mulher que ganha bem e que pode comprar roupa cara, não é a mulher que vai ao ginásio com frequência, não é a que faz uma viagem de longo curso todos os anos, não é a que não quer ter filhos e também não está particularmente interessada em casar, não é a que bebe sumos detox, não é a mulher que duas semanas depois de ter um bebé está outra vez com o corpo que tinha antes da gravidez, não é a mulher que tem tempo para ela, nada disto são mulheres reais. Aparentemente, e pela lógica da coisa, essas são as outras. São as que se sentem miseráveis com o trabalho que têm, são as que se queixam que o ordenado não chega para tudo, são as que saem do trabalho e vão a correr para casa fazer o jantar para o marido e para os filhos, são as que casam e têm 3 filhos por causa da pressão social, são as que dizem que vão iniciar uma dieta, que agora é que é, que vão deixar de comer hidratos de carbono mas que à noite comem meio pacote de bolachas, são as que estão inscritas no ginásio mas não têm tempo para lá pôr os pés, são as que se queixam que estão gordas porque ainda não conseguiram perder o peso que ganharam na gravidez mesmo que a criança já cá esteja fora há uns bons 15 anos, são que as que têm mais em que pensar do que nas tendências e nos saldos da Zara, as que não têm tempo para ir ao cinema, as que vão de férias para a Costa da Caparica com a filharada e que regressam ao trabalho, o tal miserável de que se queixam todos os dias, mais cansadas do que quando foram. É esta a "mulher real"? Eu acho, e quero mesmo muito acreditar, que não. Mas pelo que leio nos blogs que visito diariamente parece que a maioria das pessoas não pensa assim.
Esta discussão começou no início da semana com o corpo da Jessica Athayde que não só não é corpo que se apresente numa passerelle como também não é representativo dos corpos das mulheres reais "porque a mulher real não tem tempo para ir ao ginásio todos os dias" - afinal em que ficamos?! - mas também estala com muita frequência na caixa de comentários d'A Pipoca Mais Doce que é sempre uma coisa que me anima muito. Que é uma vergonha ela publicar fotos com vestidos que custam 600€, que a mulher real não tem dinheiro para comprar coisas tão caras; que é uma vergonha vir dizer que todas as semanas tira um dia para se dedicar apenas ao filho, que a mulher real trabalha de segunda a sexta, 8 horas por dia, e muita sorte tem ela em chegar a casa e ver os filhos acordados; onde é que já se viu gabar-se de que foi passar um fim-de-semana romântico só com o marido a um hotel de 5 estrelas, que a mulher real não só não tem dinheiro para gastar nessas coisas como não tem com quem deixar a criança... mas o que é isto?! Se a "mulher real" é isto então não quero! Passo, fiquem vocês com ela que ela deve ser a pessoa mais infeliz da história. Ou será que estamos a ser extremistas? Se calhar estamos. Cada pessoa vive a vida de acordo com a sua própria realidade. Pronto, se calhar a maioria de nós não tem dinheiro para dar 600€ por um vestido, ou somos demasiado preguiçosas para levantar o rabo do sofá e irmos ao ginásio onde largamos 40€ todos os meses, mas somos tão reais como as outras. A "grande maioria" não é o retrato nem sinónimo da "mulher real" é apenas... a grande maioria. É o espelho de uma sociedade. É a generalidade. Mas, felizmente, não é o fado de toda a gente. Aquilo que nos separa não é o real e o irreal, é a nossa força de vontade e a sorte que temos. A Ana Garcia Martins não é uma mulher real por ganhar a vida a fazer o que gosta e ter tempo de qualidade para dedicar ao filho? A Jessica Athayde não é uma mulher real por beber sumos com espinafres todas as manhãs e ter um corpo jeitoso? Claro que é. Claro que são. E pensarmos que não, que aquelas pessoas e aquelas vidas são completamente inalcançáveis porque, lá está, não são reais, só faz com que a nossa própria vida, com as gordurinhas acumuladas e os sapatos da Zara a imitar uns Louboutin, pareça um poço sem fim de desespero.

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publicado às 10:19


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