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The F word

por Marisa Furtado, em 22.09.14

Acho importante que as discussões dos assuntos sérios e que interessam a toda a gente, e que podem mudar a vida de todos nós, não se cinjam apenas à política e às pessoas que a fazem. Que não sejam discutidos apenas em assembleias por alguém com pouco carisma e que, por isso mesmo, não consiga chegar às massas. É importante que esses temas extrapolem desses locais cinzentos e empoeirados para a cultura pop e sejam divulgadas por quem a faz. Não para se tornarem numa moda com tudo o que isso tem de mau - originarem opiniões e reacções inflamadas que facilmente se esquecem para dar lugar à next big thing - mas sim por ser uma forma rápida e muito mais democrática de nos pôr a todos a falar do mesmo, de pôr temas importantes e interessantes na boca das pessoas e de os tirar do pedestal inatingível, ou só atingível a alguns - poucos -, onde estiveram durante tantos anos. É isso que tem acontecido com o Feminismo. Já são várias as vozes de mulheres famosas que se levantaram para falar e divulgar este tema. A Beyoncé conseguiu algo que eu acho extraordinário: pôr toda a gente, mesmo miúdas novinhas, a discutir, a pensar e a cantar sobre o feminismo. O que é, o que significa, o que podemos fazer para lá chegar. Acho que isto é inédito. Mas há mais: Ellen Page, Lena Dunham, Rashida Jones, Amy Poehler, Leighton Meester, Emma Watson... podia continuar.

Foi precisamente a Emma Watson que me levou a escrever este texto. A actriz esteve há dias no parlamento uruguaio enquanto embaixadora da ONU Mulheres e ali fez um discurso comovente e extremamente inteligente - desengane-se quem pensa que a cultura pop de que falei ali em cima só produz Miley Cyrus... - acerca do feminismo. De entre as coisas interessantes que disse houve uma que despertou a minha atenção por ser algo que raramente se discute: o papel dos homens no Feminismo. Fazendo uma tradução livre, o que ela disse foi mais ou menos isto: "Em 1997 a Hilary Clinton fez um famoso discurso em Pequim sobre os direitos das mulheres. Infelizmente muitas das coisas que ela queria mudar continuam a ser uma realidade. Mas o que mais me impressionou foi que apenas 30% da audiência era composta por homens. Como é que pretendemos mudar o mundo quando apenas metade de nós é convidado ou se sente à vontade para participar na discussão?". Também os homens devem fazer parte desta mudança de mentalidades. O Feminismo não tem, nem pode, ser uma coisa só de mulheres. Porque é que haveria de ser? A ideia aqui é acabar com a descriminação e dar lugar à igualdade dos sexos. Mas se fizermos questão de travar essa luta sozinhas, se nos fecharmos em nós próprias a defender os nossos direitos no matter what e virmos os homens como o inimigo... não será isso também uma forma de descriminação? É. 

Felizmente já percorremos um longo caminho. Hoje em dia já são muitas as mulheres com uma voz activa na política e a desempenhar cargos importantes nas mais diversas áreas. Porém isto ainda não é o suficiente para nos sentirmos confortáveis nesses papeis. Não é incrível? Pode ser porque esta mudança de mentalidades é relativamente recente mas também é porque muitas mulheres não assumem a sua condição nos cargos importantes que ocupam. Confuso? O ano passado houve um movimento para banir a palavra bossy. O mantra era: I'm not bossy, I'm the boss. Tudo bem. O problema é que há muitas mulheres que ainda acham que para chegarem a certos lugares, ou para manterem os lugares de topo onde estão, têm de assumir uma posição mandona. Bossy. E isso não é uma exigência do mundo masculino é um preconceito que as próprias mulheres têm em relação a si mesmas porque continuam a achar que para estarem ao mesmo nível que os homens não podem ser aquilo que são: mulheres. Continuam a achar que têm de anular o seu lado mais feminino para conseguirem o respeito dos outros. Acham que têm de ser mais brutas e menos sensíveis. Menos femininas. Gostar de se arranjar, de se vestir bem, de se cuidar, ser educada e delicada, ter classe, tudo isto faz parte da essência das mulheres e não é preciso anular nenhuma destas coisas, não é preciso anular-se enquanto mulher, para conseguir ter um pulso firme. Para ser uma lider. Pensar o contrário é redutor e destrói o conceito do Feminismo. Nós não queremos as mulheres no poder para serem iguais aos homens. A ideia é completamente a oposta! As mulheres devem estar no poder por serem diferentes dos homens. Por trazerem algo de novo. Por serem mais sensíveis, mais ponderadas. Espírito de liderança, firmeza e segurança não são sinónimos de insensibilidade. Uma mulher bruta e que se deixa cegar pelo poder não será, nunca, uma líder. Uma mulher que se anula, que anula a sua feminilidade com tudo o que isso acarreta, na esperança de conseguir calçar os sapatos de boss será sempre bossy e a única coisa que transmitirá aos outros será uma enorme insegurança. Nada mais. Este preconceito é algo que os homens podem ajudar a combater mas o primeiro passo, essa mudança de mentalidade e de atitude, tem de partir de nós, mulheres. Será assim tão difícil?

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publicado às 15:54



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