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Os despedimentos e as alternativas

por Marisa Furtado, em 13.06.14

Gosto do Ricardo, do blog O Arrumadinho, conheço-o, já fomos colegas, e se há alguém a quem tenho de agradecer por me ter puxado para o mundo do jornalismo é a ele, mesmo que não tenha corrido tão bem como eu esperava - entrei cheia de ilusões e ideias romantizadas da área. É das pessoas com mais garra que conheço e está sempre um passo à frente em relação ao que de mau pode estar ao virar da esquina. Quando as coisas a nível profissional não lhe correm de feição a minha reacção é sempre "que horror! isso é terrível! e agora o que é que vais fazer?" e do outro lado há sempre um sorriso confiante e um "não há problema. já tenho umas coisas em mente." Admiro isto, esta postura, esta visão permanente do copo meio cheio. Admiro o facto de ter sempre um milhão de ideias e não se deixar acomodar, porque nunca se sabe o dia de amanhã. Mas, infelizmente, nem todos têm a mesma garra. Estou certa de que se pudéssemos escolher todos nós seríamos assim. Sempre. Cheios de ideias, de projectos, de sorriso nos lábios e de determinação no olhar. E é por isso que, embora compreendendo o que ele quer dizer com este texto, concordo mais com a Sónia. A visão dela é mais realista. E mais negra e triste, também. Mas às vezes é bom sermos confrontados com uma visão mais fria, onde todas as hipóteses são postas em cima da mesa. Nas alturas mais desesperantes da vida de uma pessoa, discursos hiper optimistas, como o do Ricardo, incomodam. Chateiam. Porque nem toda a gente consegue ver, sempre, o copo meio cheio. Porque, na verdade, e como diz a Sónia, nem todos conseguimos ser empreendedores, freelancers, criativos, arrumadinhos e pipocas, acordar todos os dias com ideias fresquinhas para pôr em prática. E não há mal nenhum nisso. E sim, para essas pessoas, o destino será, provavelmente, ir para as filas do centro do emprego. Aliás, não só para essas mas, também, para as outras, para as optimistas, para as que vêem o copo meio cheio, para as que têm a cabeça a brotar de ideias. Tal como a Sónia, também eu conheço algumas pessoas assim. Determinadas, com muito valor e vontade de pôr uma data de projectos em prática mas que, pura e simplesmente, não têm o factor sorte a favor delas. Não têm! E agora pergunto eu: Qual é a solução? É passar a vida a lutar para ouvir um sim no meio de milhares de nãos? E se esse sim não chegar? Durante quanto tempo é que temos de esperar por ele? A solução é continuar optimista e fazer um esforço para acordar na mesma com ideias giras, depois de meses ou anos a ouvir nãos e o barulho de portas a fechar? Isso é muito bonito mas há-de chegar o dia, ao fim de muitos nãos, em que acordamos e somos confrontados com a dura realidade: uma pessoa sem trabalho, sem dinheiro e com as contas para pagar, a renda da casa que já está atrasada, o passe do metro que está quase a chegar ao fim, e quando esse dia chega, a meu ver, não há mesmo outra solução que não seja irmos para as filas do centro de emprego e procurarmos coisas noutras áreas. E qual é o mal? Eu também sou suspeita, porque não me imagino a viver para o trabalho, a sacrificar a minha vida pessoal em nome de uma carreia brilhante onde quer que seja. Prefiro, sim, e à falta de alternativa, fazer uma coisa fora da minha área e receber um ordenado certinho ao fim do mês e ter a possibilidade de ir de férias para fora do país, conhecer coisas novas, poder ir conhecer um restaurante novo ou ir ao cinema duas ou três vezes por mês sem me sentir culpada, comprar aqueles sapatos que andei a namorar durante semanas, conseguir pagar as contas a tempo e horas sem sentir sempre a corda no pescoço.


Quando saí da faculdade também estava cheia de esperança e de sonhos e de garra. Ia trabalhar para uma revista ou jornal, ia, finalmente, ser jornalista, contar histórias importantes, tocar a vida das pessoas, daquelas com quem falo e das que lêem os meus textos, vou ser a Lisa Ling portuguesa! Mas depois as coisas não correram bem, porque afinal o jornalismo não é assim, muito menos para uma pessoa que está a começar, porque é preciso penar muitos anos até conseguirmos encontrar o nosso lugar e não sermos apenas mais um, porque é muito raro escrever sobre coisas que, de facto, interessam, porque implica darmos tudo à profissão e deixar a vida pessoal para segundo plano, por falta de tempo mas, também, por falta de dinheiro - é incrível o quão mal se consegue ganhar nesta área -, porque implica um grande espírito de sacrifício que eu, na altura, não tinha, porque é das profissões mais difíceis e ingratas do mundo. Depois de levar com este balde de água fria e de me ter ido embora do jornal não tive outra hipótese que não fosse trabalhar com aquilo que a vida me ia dando. Ainda enviei currículos para esta área e cheguei a ir a algumas entrevistas mas a oferta do outro lado era sempre a mesma: estágios curriculares, recibos verdes, x tempo à experiência e eu não queria nada disso! Queria trabalhar, ganhar dinheiro, para me conseguir emancipar e fazer-me à vida. E, infelizmente, isso não se faz com estágios curriculares ou ordenados de 500€ a recebidos verdes. E foi assim que fui ter ao sítio onde estou agora. Um lugar onde nunca pensei que ia trabalhar mas que foi uma agradável surpresa, a vários níveis, e que me permitiu mudar de vida: sair de casa dos pais, arranjar uma casa com o meu homem, poder conhecer os restaurantes da moda, conseguir fazer uma viagem todos os anos ou de dois em dois, irmos passar fins-de-semana românticos de vez em quando a sítios que não sonhávamos existirem no nosso país e tudo isto porque me atrevi a ir para as filas do centro de emprego e procurar coisas fora da minha área. Não quer dizer que vá ficar aqui para o resto da vida, podem sempre mandar-me embora a qualquer momento, mas, por agora, sinto-me uma sortuda e estou feliz por ter um trabalho que gosto - apesar de não ser aquele que sempre sonhei fazer - e que me permite fazer estas coisas todas e sonhar com outras tantas. Mas se entretanto a minha sorte mudar a minha postura vai ser a mesma que me trouxe até aqui. 


Conheço muita gente, as tais pessoas criativas e super optimistas, que não conseguem arranjar, ou criar, trabalho de forma alguma e quando vejo que a situação se está a tornar desesperante a primeira coisa que digo é: "então e se procurares coisas fora da tua área?" e, invariavelmente, a pessoa que tenho do outro lado olha-me como se eu fosse um monstro. Que isso é impensável, que andou a estudar não sei quantos anos para aquilo, e que tem de ser, e que vai conseguir. E eu calo-me. Porque percebo perfeitamente que a minha solução não é, por vezes, a ideal mas é, muitas vezes, a possível. E, mais uma vez, não há mal nenhum nisso. E o errado é olhar para esta solução com preconceito. Quando a vida nos dá um pontapé no traseiro e as nossas expectativas, os nossos sonhos, saem gorados o melhor é que nos consigamos adaptar a isso! Procurar outras coisas, mesmo que sejam coisas que nunca pensámos fazer. Mudar a nossa perspectiva. Isso não significa que o facto de agora só termos conseguido arranjar um trabalho num call center que essa seja para sempre a nossa vida e que não valha a pena continuar a lutar por aquilo que realmente queremos. Nada disso! Só acho que, muitas vezes, as pessoas se deixam cegar pelos próprios sonhos, o sonho da carreia perfeita, o sonho de fazer aquilo para que se estudou para o resto da vida, sem conseguir perceber que, às vezes, quando as coisas se tornam difíceis e não se consegue arranjar exactamente o que queremos, o melhor é pormos esses sonhos em espera para conseguirmos realizar outros. Também esta pode ser uma forma de nos reinventarmos... e de vermos o copo meio cheio.

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publicado às 10:46


2 comentários

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De Banana a 13.06.2014 às 21:43

Concordo perfeitamente contigo. Embora isto vá sempre depender da personalidade de cada um. Já para não falar do tal factor sorte...
Sem imagem de perfil

De m-M a 18.06.2014 às 15:53

Adorei este texto.
Tembém sou "jornalista", também passei pelo mesmo.
Também escolhi a fila do centro de emprego e outras áreas para conseguir a independência, mesmo que às vezes "tremida", como andam as empresas em Portugal. E foi o centro de emprego que me trouxe até aqui, onde estou e adoro. Se me perguntassem há 4 anos se era aqui que ia estar... "eu, não me parece nada? Eu lá percebo disso?".
Admiro os nossos colegas copo-meio-cheio - e incluo o Ricardo, sem a "persona", mesmo não o conhecendo - nessa categoria. Admiro-os, mas eu sou mais como a Sónia... daí ter feito a mesma "escolha do que tu".

Obrigada por este texto.

Beijinho,

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