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Get away | Aterra

por Marisa Furtado, em 18.08.14

Este "Get away" é um bocadinho diferente dos habituais simplesmente porque a minha experiência aqui não foi das melhores. Porém, sei que o problema é meu e não do sítio que, sei, fará as delícias de pessoas um bocadinho mais descontraídas que eu.

O ano passado eu e o meu homem, assumidas pessoas de hotéis e que prezam o conforto do betão, achámos que podia ser giro irmos acampar. Não sei porquê. Simplesmente um dia acordámos e achámos que era uma boa ideia. Eu, que não sou nada dada ao contacto com a natureza, que acho que a vida selvagem é muito bonita mas ao longe, aos domingos de manhã na SIC, e que fico histérica sempre que vejo um insecto, achei, por momentos, que acampar podia ser a coisa mais fixe de sempre. Go figure. Ainda andámos a ver umas tendas que, felizmente, não comprámos porque entretanto descobrimos o Aterra, um acampamento giríssimo em S. Teotónio, no meio de um bosque. A filosofia deste espaço é o eco camping in luxury, quer isto dizer que se trata de um acampamento de luxo no meio da vida selvagem. Pensámos "Olha! É mesmo isto. O melhor dos dois mundos. A essência do campismo mas com o conforto dos hotéis." Pois, isto não é beeeeeem assim. Pelo menos não para mim. É verdade que não há cá tendas que demoram horas a montar e sacos-cama desconfortáveis. Aqui as pessoas dormem em camas dentro de tendas bonitas, bem decoradas, com candeeiros e wifi mas no meio da bicharada que costuma habitar os bosques e nunca esquecendo, claro, os conceitos ecológicos.

Antes de aqui chegar a minha pegada ecológica resumia-se a não deixar a água a correr quando não estivesse a precisar dela, usar lâmpadas economizadoras, não acender as luzes durante o dia... mas isto vai muito para além disso como é lógico. No Aterra a ecologia é lavada ao extremo. O que é bom, não digo que não, mas não é para mim. Aqui há duas sanitas, dois chuveiros e dois lavatórios no meio do acampamento para toda a gente usar, e não são áreas fechadas, com paredes, são casinhas de bambu abertas em cima e em baixo por onde entra o ar e, claro, a bicharada. Quando reparei nisto pensei "Pronto, é diferente, é uma experiência nova. Até pode ser giro estar a tomar banho assim ao ar livre a ver o nascer ou o pôr-do-sol". Até aqui tudo bem. Sou suficientemente open minded para aceitar tomar banho naquelas condições. O problema foi quando a minha mente, até ali aberta, esbarrou nas sanitas. Aqui fechou-se a sete chaves e só se voltou a abrir quando cheguei a casa, três dias depois. Neste local a reciclagem está na ordem do dia por isso as casas de banho funcionam através da compostagem seca. Sentamo-nos na sanita, fazemos o que temos a fazer, depois enchemos uma caneca com serradura, tapamos tudo muito bem tapadinho e vamos à nossa vida. Isto ao fim do dia é retirado lá de dentro e usado para fertilizar as terras em redor do acampamento. Acho que foi mais ou menos por esta altura que senti a desenvolver-se em mim uma ligação emocional aos autoclismos. Sempre que ia à casa de banho, para além de inspeccionar todos os cantinhos daquela casota de madeira para ver se não havia nenhum bicho lá dentro, tinha noção que ali por baixo daquele montinho de serradura que já estava dentro da sanita estavam "presentes" deixados pelos outros hóspedes. Acredito que para muita gente isto é normalíssimo, é apenas um estilo de vida diferente, e não se chateiam nada com estas coisas, nem pensam nelas, mas eu sou muito picuinhas, gosto de ter tudo sob controlo, gosto de sanitas de loiça branca a brilhar e a cheirar a Sonasol e, portanto, estava completamente fora do meu ambiente. E isso notava-se. Ora vejam:

Na primeira noite, antes de ir dormir, desci até à zona das casas de banho para fazer a minha higiene e reparei que no espelho por cima do meu lavatório estava uma coisa estranha. Aproximei-me e pareceu-me um simples laçarote castanho. Um apontamento decorativo portanto. Apontamento esse que não existia no espelho ao lado... "Hum, que estranho." Vim a saber mais tarde que aquele artefacto não era nenhum laçarote, era mesmo uma larva em processo de transformação que esteve ali três dias muito quieta a olhar-me olhos nos olhos enquanto escovava os dentes.

Na manhã seguinte quando saímos para tomar o pequeno-almoço fomos informados que só podíamos entrar na área de refeições descalços. O caminho entre as tendas e a área de convívio é de terra batida e por isso os donos não querem que os hóspedes andem ali de sapatos. Até aqui tudo bem - mais ou menos, mas pronto - mas como tinha chovido na noite anterior o pavimento estava todo molhado e, por isso, senti-me relutante em entrar ali descalça. Não queria tomar o pequeno-almoço com os pés todos molhados, coisa que não aconteceria se pudesse estar calçada, nem pisar o mesmo chão de madeira que aquelas 8 ou 9 pessoas também estavam a pisar... não me pareceu uma coisa muito higiénica e a voz hipocondríaca da minha cabeça gritava "GERMES!". Só me lembrei da Carrie Bradshaw no episódio "A Woman's Right to Shoes". Bom, lá fomos tomar o pequeno-almoço de pés ao léu e ao som de umas músicas supostamente zen, com muitos sininhos e flautas, e cerca de uma hora depois voltámos para a tenda. Pelo caminho fui tropeçando nos habitantes lá do sítio: traças enormes, sapinhos, umas coisas tipo melgas mas meio transparentes e esverdeadas, aranhas com pernas enormes, lagartos, gafanhotos, besouros e mais uns quantos que nunca tinha visto na vida. Enfim, se há coisa de que ninguém se pode queixar é da falta de riqueza da fauna envolvente. Assim que entrei na tenda, toda arrepiada com aquela bicharada e a pensar que tinha de ir lavar os pés asap, vi que estava uma coisa preta em cima da minha almofada. Aproximei-me, a medo, para ver o que era e quando percebi que era um grilo, que tinha um grilo dentro do quarto, em cima do sítio onde ia deitar a cabeça naquela noite, desatei aos gritos e saí dali a correr. Claro que o bicho com tanta gritaria desatou aos saltos pelo quarto e desapareceu atrás de cama. Nunca mais o vimos. Nessa noite dormi tapada até às orelhas com medo do grilo. E isto foi sempre assim até ao fim. Havia bicharada em todo o lado, dentro e fora da tenda, o que me começou a deixar ansiosa e um bocado paranóica também. Sempre que sentia qualquer coisa a tocar-me na pele desatava a esbracejar feita parva.

Como podem ver foram três dias muito pouco descontraídos. Todo aquele ambiente era demasiado freak para mim e não tinha mesmo nada a ver comigo. Foi uma experiência diferente que serviu para provar que esta não é mesmo nada a minha cena. As tendas até podem ser muito giras e o conceito muito interessante mas a quantidade de bicharada que conviveu de perto comigo deixaram-me com saudades dos hotéis construídos com o bom velho tijolo que não deixa entrar nem uma mosca. Portanto, se forem picuinhas como eu não vos aconselho este sítio. Se forem mais descontraídos, se não se importarem com os bichos, se tomar banho ao ar livre até for uma coisa que sempre gostaram de experimentar, se acharem interessante o conceito da compostagem e se comer de pés descalços num chão que pode, ou não, estar molhado não vos chateia nada... go for it, you'll love it.

 

 
 
 
 
 
 
 
Uma espécie de praia privada
 
 
A zona das casas de banho
 
 
 
A zona de refeições
 
Imagens via Facebook Aterra e Google

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publicado às 10:39


3 comentários

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De Laissez-Faire a 18.08.2014 às 11:18

Parece tão giro, mas eu sou tão histérica com bichos...
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De Isa a 18.08.2014 às 13:13

Txé, que cena mais marada :D acho que não trocava a minha 3 segundos onde a bicheza não entra por muito que tente e os balneários colectivos onde posso tratar dos meus assuntos privados com relativa normalidade por essa experiência do eco camping luxury que descreveste.. não era mesmo coisa para mim, e eu adoro acampar lol
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De m-M a 21.08.2014 às 15:07

Já vou tentar convencer o meu Rapaz... até porque ainda não fomos passar o nosso fim-de-semana "anual" ao campismo, por causa da Tese :p

Beijinho,

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