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"Estás tão magra!!!"

por Marisa Furtado, em 26.06.14

Afinal gostar de telemóveis não é o único problema que tenho na vida. Tenho mais dois: sou branca e magra. Quem diria que estas duas coisas se fossem transformar em dramas. Para os outros, claro, que eu vivo bem com as duas. Sobre o drama de ser branquinha já falei, por alto, aqui. Uma das coisas que mais oiço o ano inteiro é "que horror estás tão branca/pálida! Estás doente?!" Não acham que é a frase mais simpática e fofinha de sempre? Eu a-do-ro! A outra exclamação que me está sempre a entrar pelos ouvidos é "estás tão magra!! Deves ter anemia."


...


Ora bem, vamos lá ver se nos entendemos. Eu não estou branca nem estou magra. Eu sou branca e magra. Ponto. E não é por me besuntar em pó de arroz translúcido todas as manhãs ou por fazer dietas malucas e ser esquisitinha com a comida. Sou loira e sempre tive uma tez branquinha, por isso não sei qual é o choque com o meu tom de pele, como se fosse uma coisa nunca antes vista. Estranho seria se tivesse cabelo loiro e o tom de pele de um marroquino. No verão este comentário torna-se especialmente insuportável. Como não vou à praia com muita frequência - gosto mais da praia de Monte Gordo, onde vou todos os verões uma ou duas semaninhas. Está sempre calor e a água não é fria. Já as de Lisboa e arredores são insuportáveis. Ou está demasiado vento, ou está frio, ou está bandeira vermelha e ninguém se consegue enfiar na água, ou o mar está gelado e eu detesto água fria - apesar de me ir bronzeando nunca fico castanha, como a maior parte das pessoas que conheço. Logo, estou mais branca que o resto do mundo, logo estou doente com uma valente anemia. Será que essas pessoas também iam gostar de estar sempre a ouvir coisas do género "que horror!! Estás tão bronzeada! Olha que o sol faz mal à pele. Devias ir ao médico que de certeza que já tens aí um cancro qualquer." Não era bonito pois não? Era incómodo para quem ouvisse e exagerado e inapropriado da minha parte fazer esse tipo de comentários. Mas o contrário já pode ser, não é? Pele branca = anemia/outra doença qualquer = escândalo. Certo.


Com o peso a tendência para os comentários exagerados e desajustados é a mesma. Desde que me lembro que sou magra. Não magra esquelética mas... magra. Normal. Só fui rechonchuda quando era bebé mas depois fui emagrecendo e, há pelo menos 10 anos, que o meu peso só oscila 1 ou 2kg. Não por eu fazer alguma coisa por isso, simplesmente é assim que as coisas são! Tenho um peso normal para a minha altura e os médicos nunca me disseram que tinha de engordar, não faço dietas nem deixo de comer determinadas coisas por, supostamente, engordarem, muito pelo contrário, como tudo o que me apetece sem pensar no assunto. Mas, aparentemente, o que faz confusão às pessoas é o facto de eu não comer até rebentar. Como de quase tudo mas em quantidades moderadas. Detesto aquela sensação de acabar de comer e sentir-me a abarrotar e mal me conseguir mexer. Como tenho um estômago muito frágil que faz com que, à mínima, fique logo enjoada e com gastrites prefiro comer até me sentir satisfeita. Mas aparentemente não é assim que as pessoas normais comem. O ideal é encher o prato de comida, devorar aquilo tudo sem pestanejar e se depois não se conseguirem levantar da cadeira, azar. Tomam um Eno e a coisa passa. 


Tenho uma amiga, a Rita, que me acompanha desde os 6 anos. Quando éramos pequenas íamos de férias juntas todos os verões e passávamos a vida em casa uma da outra. A Rita era um bom garfo o que significa que o discurso à mesa era sempre: "A Rita é que come como deve ser", "A Rita não é esquisita com a comida, como tu!", "Até dá gosto ver a Rita comer. Já tu, não comes nada!" Isto aliado a: "Só vais comer isso?", "Come mais!", "Estás cheia? Pois é normal, as pessoas quanto menos comerem menos fome têm. Tens de habituar o teu estômago a comer mais" - confesso que esta é a minha teoria favorita -, "Dói-te a cabeça? É normal, não comes nada!", "Estás mal disposta? É normal, não comes nada", "Tens frio? É normal, não comes nada". No fundo tudo o que de mau me acontece na vida é porque não como nada, segundo os fundamentalistas da alimentação. E agora pergunto: será que essas pessoas também iam gostar de ter uma gralha à mesa que estivesse sempre a dizer "Vais comer tanto? Que horror isso faz-te mal.", "Devias ir ao médico que estás a ficar gorda", "Devias comer menos senão qualquer dia rebentas". Se calhar não gostavam. Se calhar até achavam que discursos deste género eram o suficiente para lhes estragar a refeição.


Portanto, e para acabar, a minha dica é: parem de chamar as pessoas a atenção por coisas que elas, simplesmente, não podem mudar. Porque a natureza é assim mesmo que funciona. Não é por me dizerem mil vezes que estou branca e magra que me vou pôr a torrar ao sol durante horas, com factor de protecção 5, e a enfardar sandes de carne assada como se não houvesse amanhã. Não percebo qual é a dificuldade das pessoas perceberem que, o importante, é cada um sentir-se bem com o peso que tem. Sentir-se bem como é. Branca, preta, magra, gorda, com sardas, com os dentes tortos, com os cabelos aos caracóis. Cada um é como é. E é completamente desnecessário, e extremamente desagradável, haver meio mundo a pôr defeitos naquilo que somos. 

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publicado às 09:52


2 comentários

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De Banana a 26.06.2014 às 12:22

Tal e qual. Devíamos formar um clube qualquer.
Acho ainda mais curioso o facto de toda a gente, em geral, achar que fazer um comentário relativo ao excesso de peso de alguém é ofensivo e desagradável mas ao contrário (peso a menos) já não é! Haja paciência.
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De Rita a 27.06.2014 às 00:41

Lembro-me tãããããão bem desses discursos :P se calhar por ser tão bom garfo que agora não me consigo ver livre destes 5kg (vá lá, podiam ser mais).
Mas estás bem como estás! Não ligues :)

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