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A fonte de conhecimento que se esconde num comboio

por Marisa Furtado, em 22.01.15

Toda a minha vida andei de transportes públicos e toda a minha vida odiei andar de transportes públicos. As caminhadas que se têm de fazer até à estação, o frio que se apanha até e na estação, a ditadura dos horários "ai perdeste o comboio sua lontra molengona? Então agora senta o rabo nesse banco gelado e espera meia-horinha pelo próximo", as pessoas que não têm qualquer tipo de noção e se empurram umas às outras, ou se sentam todas abertas a ocupar imenso espaço como se estivessem no sofá lá de casa, ou então aquelas que em vez de se sentarem delicadamente nos bancos se mandam para cima do assento, fazendo com que quem está sentado ao lado seja quase projectado para o tecto. Felizmente agora tenho a sorte de andar quase sempre de rabo tremido no quentinho do carro. Porém, como nós somos dois e o carro é só um e há dias em que os nossos horários não se cruzam, volta e meia lá tenho eu de voltar à triste sina dos transportes. A parte boa é que no meio disto tudo esbarramos com pessoas que, de outra forma, nunca se cruzariam no nosso caminho.
Aqui há dias entrei no comboio esbaforida como de costume, porque tive de sair quase a voar do metro sob pena de perder a porra do comboio, sentei-me e depois da habitual coreografia - tirar o casacão, encontrar uma maneira de arrumar o chapéu de chuva de forma a não estar sempre a cair para cima do desgraçado que se sentar à minha frente, procurar o telemóvel dentro do universo que é a minha mala para ver se há mensagens, procurar o iPod e os respectivos fones - oiço: 

- Porque eu já estou farta de dizer à mulher que não quero que o cão dela faça cocó por baixo da minha janela e se isso voltar a acontecer eu juro que mando com um pau à porcaria do cão e já lhe disse isso! E ainda chamo a polícia, que se ela fosse para o estrangeiro não podia deixar o cão fazer aquilo. Só aqui é que ninguém diz nada!

E eu com uma vontade de lhe dizer "oh minha senhora, se a polícia nem vai ao meu prédio dar um raspanete ao meu vizinho de cima que tem a mania que é DJ e que à meia-noite é que se lembra de começar a ouvir música aos berros, acha MESMO que se ia deslocar a sua casa por causa de umas caganitas?" Mas como não estava para isso pus os fones nos ouvidos, liguei o iPod e lá fui eu a ouvir a minha música. Mas não por muito tempo. Uns minutos depois o senhor que estava à minha frente levantou os olhos do jornal, olhou para a mulher que estava a falar e começou a rir-se. Ora como eu também me queria rir desliguei a música e pus-me à escuta. E escutei o seguinte:

- ... porque os miúdos hoje até são capazes de matar os pais. Tal como os pais matam os filhos! Já não há educação. Olhe eu tenho um filho com 24 anos e é uma jóia de pessoa. Até tirou um curso superior!

Como se isso hoje em dia fosse um grande feito! Se conseguir arranjar emprego aí sim, é um herói. Mas ela continuou:

-... e não é nenhum anormal, é bem normal até. E eu sacrifiquei bastante para lhe pagar o curso. Ah mas eu mereço sabe? Porque sou muito boa pessoa. Gosto muito de ajudar as pessoas que precisam. Os pobrezinhos, sabe? Mas olhe que é difícil encontrar pessoas que mereçam essa ajuda. Olhe a minha vizinha com o cão, aquela besta. Olhe às vezes penso que os animais são mais humanos que os humanos 'tá a perceber? Porque os animais não pensam, agora os humanos já não é bem assim!

Ora bem, esta pessoa está a afirmar que os animais são mais humanos que os humanos porque... não pensam! Apesar de ser o raciocínio que separa o animal racional do... exacto, irracional. Oh, então o desgraçado do Aristóteles andou anos a queimar pestanas para elaborar a teoria sobre o animal político para quê? Isso está tudo errado! Esta senhora é que a sabe toda.

- Hoje em dia já não há educação nenhuma! Como é que os pais podem dar uma boa educação aos filhos se vão para o cinema à noite e deixam crianças de 3 e 5 anos a dormir em casa sozinhas? Eu desde que tive os meus filhos nunca mais fui ao cinema à noite, que eu não ando a dar exemplos de boémice aos meus filhos nem ando em boîtes quando tenho os meus filhos em casa. E olhe herdei isto da minha mãe. O que dou aos meus filhos é o que a minha mãe me deu a mim, e não tenho razão de queixa. São óptimas pessoas. Uma raridade nos dias que correm...

Para quem se perdeu em "boémice", boémice vem de boémia. Vida boémia, estão a ver? Como, sei lá, ir ao cinema à noite e coisas desse estilo. Deus nos livre de ir despejar o lixo depois das 20h! Infelizmente não tenho mais ensinamentos para vos transmitir porque entretanto tive de sair do comboio e ir à minha vida. Mas a vontade de ficar era muita, acreditem. 
O que é que se retira disto? É simples: quando tiverem filhos livrem-se de virar uns ramboieiros e de ir ao cinema à noite, ou de fazer qualquer coisa que dê a entender que a vossa sanidade mental também é importante e que têm uma vida independente das vossas crias. Livrem-se de ter vida própria e de continuarem a alimentar a vossa vida social. Fiquem mas é em casa 'ssogaditas a ver o Você na TV e a Casa dos Segredos. Ah, e escusado será dizer, nada de sexo como é lógico. A partir do momento em que pomos filhos no mundo passamos a ser umas mulheres muito castas e puras, que os filhos podem ouvir qualquer coisa do outro lado da porta e ainda ficam traumatizados. 

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publicado às 10:22


1 comentário

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De JM. a 23.01.2015 às 10:19

O que retiro disso, aliás, retenho, é que nem na nossa casa se encontra paz. Só tem paz quem vive sozinho, o que parece não ser o seu caso...infelizmente :)
Daí, desde as altas prelecções nos transportes públicos às brilhantes pérolas de retórica piropianas,(piropos), passando pelos nervos incontontrolados da não apreciação do seu novo look por parte do insensível namorado, ou marido; o que não me parece fazer diferença apreciável já que a insensibilidade masculina é por demais conhecida; passando por isso tudo, dizia, o seu destino esta traçado.
Vida de desassossego.
Um BFS.

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